Jacarés e Lobisomens: dois Ensaios sobre a Homossexualidade

 

NU MASCULINO

Teu lado feminino me erotiza.

São belos, sensuais e muito caros certos momentos gostosos,

em que te encaro menos como homem e mais como menina:

quando passas teus cremes para a pele,

ou pões o avental pra cozinhar,

ou quando em mim te esfregas até gozar os teus gozos sem fim,

ou quando tuas mãos, leves e lésbicas,

desabam como plumas sobre mim.

AS APARÊNCIAS ENGANAM...

Tem tatuagem no corpo meu homem preferido.

Mas não é marinheiro,

é entendido.

EXIGÊNCIA

Meu homem eu quero,

enquanto puder,

molhado e úmido,

feito mulher..

"Aposto como muitos (como muitos? além do cacófano, um duplo sentido?) vão dizer: “esse palavrório todo é só para defender o bissexualismo. No fundo, ela o justifica porque não assume o que é, e não o faz por medo”. Se não creio em homo ou hetero, não acredito em bi, mais uma classificação inútil. Quanto ao argumento de um pseudo não-posicionamento por “medo” -- tantas vezes sugerido pelos mais ingênuos -- me parece que é sempre usado mais como provocação agressiva do que como uma expressão da realidade. “Assumir” (esta expressão tomou quase uma conotação heróica) rótulos, só para provar coragem, me faz lembrar os métodos primitivos de iniciação sexual indígena, onde meninos e meninas passavam por verdadeiras torturas para mostrarem o seu valor.. . Para mim, todas essas palavras -- puta, lésbica, bicha, sapatão, fancha, pitomba, viado, corno, racha, bofe, foda, cabaço, caralho, saco, porra -- só podem ser minadas por um comportamento libertário esvaziando seu sentido pejorativo e até ofensivo. Enquanto elas forem apenas usada_s maquinalmente, sem uma ação coerente que as desmitifique, cada vez mais estarão reproduzindo estereótipos, e, daqui a pouco, assim como se fala numa “linguagem feminina”, vai começar a se induzir a uma linguagem “homossexual” -- embora o gueto já fabrique vocábulos em profusão -- e aí o separatismo estará consolidado. Resgatar palavras apenas pela repetição delas me parece ingenuidade ou utopia. Num país capitalista econsumista como o nosso, as únicas coisas que se resgatam são as notas promissórias. . . assim mesmo quando se tem dinheiro."

 

Adentramos no mês da visibilidade Bissexual trazendo a ainda desconhecida memória do vale d@s gilletes e unicórni@s brasileiros. Para início da celebração o Bajubá disponibiliza um ensaio da poeta  Leila Míccolis, presente na obra Jacarés e Lobisomens, escrita em coautoria com Herbert Daniel. Confira o texto ”Eram lésbicas marcianas?” e descubra porque mulher com mulher dá jacaré.

Não deixe de conferir outros poemas de Leila, poeta a quem homenageamos nossa hemeroteca digital: