Nossos trapos, nossa história

Walter Benjamin nos ensina a compreender a história como campo de batalha. Nesse campo repleto de pessoas oprimidas, mortas e derrotadas, o que chamamos de bens culturais nada mais são do que despojos de guerra. Como afirma Benjamin: “Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”. Por isso, diferente do historicista que conta a história a partir de uma narrativa de progresso dos bens culturais, uma historiografia das subalternas sabe que “assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura”, de modo que as pessoas oprimidas precisam tomar a história em suas mãos buscando não os monumentos da cultura, mas seus fragmentos, seus mortos, seus escombros. A instrução de Walter Benjamin para uma historiografia das pessoas subalternizadas era estar ciente da necessidade de “escovar a história a contrapelo”, indo em direção contrária a narrativa do progresso, dos monumentos, da transmissão da cultura – sabendo, enfim que “Nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido”. É preciso tomar a perdição em nossas mãos e dela fazer a tinta de escrita da nossa história.

A lição de Benjamin nos foi ensinada pelas obras de Leonilson (Fortaleza, 1957-1993). O artista plástico cearense – em meio a epidemia da aids e o pânico social que transformava nossos corpos, desejos e amores na própria doença – soube contaminar a vida com sua arte, com uma produção poética que se inscrevia a partir de fragmentos, escombros, ruinas. Bordando em pedaços de lençóis ou pintando com gotas de sangue, Leonilson alegoriza o esforço de construção de uma memória e de uma cultura LGBT brasileira como uma escrita desde a perdição. João Silvério Trevisan, comentando a obra de Leonilson, sintetizou: “Nosso trapo, nossa arte”.

Em 2010, iniciamos um projeto de constituição de um acervo voltado para preservação, salvaguarda e instigação historiográfica da arte, memória e cultura LGBT brasileiras. Passamos a nos dedicar a tarefa de aquisição de obras de arte, livros, periódicos, LPs e CDs produzidos por lésbicas, gueis, bissexuais, travestis e transexuais brasileiras, ou que tematizem a diversidade sexual e a pluraridade de expressões de gênero no Brasil. Com investimento unicamente particular – a partir de nossa parceria amorosa, estética, companheira e política –, contabilizamos no início de 2017 dois mil e quinhentos itens – ainda sem catalogação técnica. A construção desse acervo pessoal, ligada a uma vocação colecionista, nos permitiu começar a engendrar uma história subalterna, uma historiografia que se faz aos modos dos trapos bordados por Leonilson, inscrevendo narrativas pessoais-políticas-amorosas desde fragmentos.