“Confissão da Senhorita Safo” é uma das primeiras obras editadas no Brasil

Confissão da senhorita Safo é umas das primeiras obras editadas no Brasil, na década de 1920, que foi completamente consagrada ao tema lésbico. Trazemos um excerto da pioneira pesquisa histórica Lesbianismo no Brasil de Luiz Mott descrevendo a obra:

Confissões da senhorita Safo deve ter aparecido nas livrarias brasileiras na mesma quadra que o livro anterior. Trata-se de uma obra curiosa em vários sentidos. A começar pele seu subtítulo: “História ingênua e deliciosa de uma libertina precoce e de uma sociedade secreta do amor sáfico”. Não é sem razão que foi incluída na “Coleção do livro raro e esquisito.” Editada em Paris, pela “Societé d´Éditions Deuvres des Maitres Célèbres”, não traz o nome de tradutor nem a data de sua publicação. Sua capa é uma obra de arte no mais puro estile art-deco, utilizada aliás também em outro livrinho contemporâneo de que trataremos mais adiante: Virgindade inútil e anti-higiênica, da feminista Ercília Cobral – mostra uma dezena de mulheres nuas, emaranhadas numa espécie de cipoal, algumas em poses eróticas, outras em êxtases. O recurso de lançar mão de uma editora estrangeira – talvez fajuta – certamente motivava eximir os editores e tradutor de qualquer responsabilidade penal pela divulgação da obra que certamente provocou grande escândalo na sociedade nacional: afinal, foi por esta época que a Liga Pró-Moralidade conseguiu que a polícia apreendesse quando menos duas edições tidas como imorais: o já citado Mademoiselle Cinema e a primeira edição de Virgindade inútil, ambos com pequenas referências ao lesbianismo. (…)

Logo nas primeiras páginas de Confissões da senhorita Safo esclarece-se o leitor: “A Obra francesa atribuída a Matheus de Mairobert. Obra completa pela primeira vez publicada em língua portuguesa.” Uma nota preliminar dá mais informações: “O livro que se vai ler é a história da seita anandrina (sem homem) ou sociedade secreta das tríbades de Paris que floresceu pelos fins do século XVIII.” Questionando até que ponto realmente existira o tal “colégio de tríbades vestais, dr. E. Dueheren, especialista na obra de Sade, e C. Forberg, concluindo positivamente, inclusive referindo-se a outras organizações congêneres que teriam existido em Londres e Moscou na mesma época – o Século das Luzes. (…)

O livro compõe-se de três longas cartas em que uma donzela, a srta Safo, narra com riqueza de detalhes sua entrada na seita anandrica. Logo no primeiro contacto da donzela com sua “dona”, uma mulher esbelta de seus trinta e poucos anos, levemente masculinada, após acaricia-la o corpo inteiro, não conteve sua exclamação: “Que magnífico clitóris! Safo não o possuía tão belo! Tu serás minha Safo!” Num discurso introdutório, transmite-lhes os conceitos básicos do safismo:

“São tríbades as donzelas que, não tendo nenhuma relação com o homem e convencidas da excelência da mulher, buscam nela o prazer verdadeiro, a pura voluptuosidade, e se lhe entregam por completo, renunciando ao outro sexo, tão pérfido quanto sedutor. Também são tríbades as mulheres de mais idade que, depois de cumprir os mandamentos da natureza e do estado para a propagação da espécie, reconhecem seu erro, detestam e abjuram os prazeres grosseiros e se consagram a formar discípulas da Boa Deusa.” Discurso um tanto radical e discriminatório, convenhamos!

“Mas não creias que em nossa seita se admite a quem quiser entrar, continua e preceptora. Há, como nas demais, provas para as pretendentes. Os transes por que passam as mulheres que não são virgens são tão duros que eu não posso revelar-t´os e de cada dez se conta uma que não sucumba ao fim da prova. Quanto às donzelas, são as professoras que as têm de julgar na intimidade do seu amor, e que as escolhem a seu gosto e ficam fiadoras da sua vocação. Tu me pareceste desde o primeiro instante digna de conhecer nossos doces mistérios e espero que esta noite me confirmes na opinião que formei sobre ti, e levaremos uma vida de inocência e de voluptuosidade.”

Em troca de sua doação total ao safismo, a neófita tem todas as garantias: “Nada te faltará. Eu te farei trazer vestidos, coletes, chapéus, te comprarei diamantes e prendas. Só terás aqui uma privação: a de ver homens. Aqui não entra nenhum; não os emprego nem para que cuidem do jardim, onde tenho várias mulheres fortes que aprenderam a cultivá-lo e que efetuam até a poda de árvores. Só sairás comigo e eu te irei ensinando os atrativos de Paris. Levar-te-ei, amiúde ao teatro, aos bailes, aos passeios. Encarrego-me de tua educação, com a qual te tornarás mais adorável. Farei que te ensinem a ler, a dançar, a cantar. Para todas essas cousas tenho professoras à minha disposição, e também para outras que aprenderás segunto teu talento e o teu gosto se forem desabrochando.” (p.29-30)

Não só a disciplina interna destes conventículos, mas também sua organização religiosa inspirava-se nos recolhimentos de freiras, tão bem reconstituídos por Diderot no seu célebre La Religieuse (1797). Minuciosa é a descrição do santuário de Vesta, onde no altar à direita situava-se o busto de Safo, “a mais antiga e conhecida das tríbades”; à esquerda ficava o busto da senhorita Éon (1728-1810), célebre transexual francês que viveu 49 anos como homem e seus derradeiros 34 anos como mulher. Circundando o recinto, de trechos em trechos, se viam sobre artísticos pedestais os bustos das mais belas jovens lésbicas cantadas por Safo em suas odes: Telesila, Cidno, Megara, Pirina, Andrômeda, Cirina – algumas destas também festejadas pelas mitológicas. Amazonas como suas comandantes. Havia ainda leitos e tapetes especiais para os pares de madres com suas noviças, locais para as íncubas e súcubas, e assim por diante.

No cerimonial de admissão da noviça, um dos momentos de maior solenidade era a leitura do poema “os 30 encantos da mulher formosa”:

“Seus cabelos serão de um louro claro, e os dentes como o marfim, a pele como o lírio. Negríssimos serão seus olhos e sobrancelhas, e a negrura de suas pestanas ressaltarão sobre a nesse de que está rodeada. Vermelhas hão de ser as unhas, as faces e os lábios. Compridas as mãos e os cabelos. Ampla a fronte, o busto, as ancas, de maneira que ofereçam uma opulenta redondez. Que a cintura seja estreita e permita ao seu amado rodeá-la folgadamente com teus braços, e que também seja estreita a sua boca, cuja breve fenda anuncia o apertado e difícil acesso aos seus prazeres. Que a vulva, o ânus e o ventre ofereçam sempre curvas sedutoras e não estejam enrugados. O nariz pequeno, a cabeça pequena, os seus pequenos devem parecer repelir o beijo a que convidam. Os cabelos finos, os lábios finos e os dedos finos completem o todo prodigioso impossível de achar.” (p.36)

Após a leitura deste rol de belezas, examinava-se então atentamente a candidata, passando-se à votação: se tivesse quando menos 16 desses 30 atributos, era aceita na confraria anandrina e cada uma das confreiras dava-lhe um beijo à moda florentina – no monte de vênus da noviça. Happy end!

A segunfa e terceira cartas – datadas de 1779 – narram as peripécias eróticas de srta Safo após seu desastroso passo em falso, quando foi seduzida e engravidada por um delicado cabelereiro que para engambelá-la travestiu-se de mulher. Imitando sua musa patronímica, também a jovem tríbade experimentou o amor heterossexual, inclusive a prostituição e o sadomasoquismo, várias destas ocorrências sendo minunciosamente descritas nesta parte do livro. Encerra a obra uma bela “Apologia da seita Anandrina” ou “Exortação de uma jovem tríbade”, onde o lesbianismo é elevado à glória celestial:

“Os prazeres tribádicos não só representam os únicos reais e verdadeiros; são também os mais puros, sem inquietação alguma. Entre as tríbades nunca há contradição entre os sentimentos e as faculdades; sempre o coração, o corpo e a alma estão de acordo; sempre ao desejo se segue o prazer.” E completa-se assim tal apologia do homoerotismo feminino:

“Que outro prazer pode comparar-se a este? Apressai-vos a gozá-lo, minha filha. Queira o céu que depois de gozar suas delícias durante longos anos, possais também comunicá-las a uma meiga noviça e dizer sempre com igual fervor: Mulheres, conservai-me em vosso seio: eu sou digna de vós!”(p.88)

(Luiz Mott, Lesbianismo no Brasil, 1989, p. 88-91)